Confiteor
pretérito passado e presente mais que imperfeito
Quem sou eu
Um pouco de mim sobre tudo.
Sexta-feira, Dezembro 24, 2004
Sexta-feira, Dezembro 10, 2004
O REINO FELIZ - Da série: Estórias Para Boi Dormir
Havia um reino muito feliz governado por um rei muito letrado e fino. Era muito comum que os reinos fossem governados por reis. O rei desse reino feliz era muito amado pelos súditos, não se sabe bem porque. Tanto era amado que foi reeleito rei. Diz a história que o motivo desta reeleição foi um ditado muito usado na época que dizia: “m... pouca é bobagemâ€�. Porque os súditos andavam atolados até o pescoço na dita cuja, sem nenhum prenúncio de verem o sol raiar no final do túnel. O reino andava um trem de doido! Os súditos andavam muito mal humorados, embora o rei fizesse todas as palhaçadas possÃveis para vê-los rindo. Até o bobo da corte andava muito sem graça, e o rei abrira concurso para contratar um outro, mais bem humorado. Fez-se uma fila descomunal para a inscrição. Pode-se afirmar que todo o reino se candidatou a bobo da corte, mesmo os que não tinham graça nenhuma aspiravam ao cargo, por sinal muito mal remunerado. Qualquer coisa era mais que nada, pensavam, já que emprego não era o que mais se via no reino. Não se sabe que critérios abalizaram a escolha. O certo é que todos passaram no teste e foram contratados. E todo mundo se empenhou vorazmente no trabalho, inventando uma nova piada daqui, um salto mortal dali, piruetas que jamais se viram em outro reino. Havia um tal de salto mortal triplo com queda para a esquerda, que fazia o maior sucesso, dada a sua dificuldade. O reino se tornou up to date em corda bamba, piruetas e saltos.
O rei, feliz por ter conseguido atenuar o desemprego reinante no reino (soou mal?) e por seus súditos estarem aptos e ocupados demais em aprimorar seus conhecimentos, pode refletir sobre a melhor maneira de enfrentar um monstro que ameaçava comer a última rapadura do povo: a Crise. Mas o rei tinha muita confiança em si e em Deus. Aliás, era ele na Terra e Deus no céu, embora tivesse tentado trocar, certa feita, e fazer ele na terra e Deus também. Pensou em nomear Deus para Ministro da Economia, mas o Senhor recusou, porque andava sem experiência no assunto - o último reino falido que tivera que administrar fora há uns bons 2.500 anos - e, nem Ele seria capaz de ajeitar as finanças deste reino. O rei pediu que Deus indicasse alguém, quem sabe S. Jorge? Podia ser mesmo um santo desconhecido, Santo Antão, por exemplo. IrreversÃvel, Deus não teve misericórdia, e o rei se viu obrigado a nomear um tal de Pedro Malheiro, que, diziam as más lÃnguas, era parente muito próximo do Capeta. Malheiro fez o diabo para dar certo.
Não diz a história se deu ou não deu, mas as medidas do tal ministro fizeram os súditos comerem o pão que o Diabo amassou com o rabo, e até os neobobos perderam um pouco da Graça. O monstro invadiu o reino com tal fúria que de norte a sul não se falava em outra coisa. É verdade que o rei nunca acreditou que a Crise existisse de fato, e saber que uns e outros a tinham visto cara a cara, não lhe convencia. Mesmo assim, convocou um outro monstro para dar cabo da Crise: o tenebroso FMI! Boas intenções teve o rei, mas monstros não têm boas intenções. Simpatizaram um com o outro, o FMI pediu ao rei a mão da Crise, que achou por bem aceitar, e a lua de mel dos dois monstros durou uns 20 anos. Tiveram muitos filhos, CPMF, FEF, e outros malignos com seus estranhos e imponentes nomes, que devoraram não só as rapaduras, mas até os coités que as guardavam. Só não viveram felizes para sempre porque a esperança ainda é a última que morre. God save el Rei! Continuavam a bradar os bobos da corte, para não perderem o emprego, que de bobo eles não tinham nada.
(Por J. Stapafúrdio Soares – Presidente e único membro da ABEI – Associação Brasileira de Estórias Infundadas).
Quarta-feira, Dezembro 08, 2004
IINSENTIVANDO A LEITURA?
Ontem, na Rede Minas (TV educativa, TV cultura, sei lá) peguei o trem andando num debate com um sociólogo e uma professora de literatura da sobre alguma coisa como o velho e tenebroso “incentivo à leitura�. Perdi o sono tentando avaliar a discussão. É tão claro o quanto tudo isto é absolutamente inútil que não entendo onde está a trave do olho destes doutores em literatura.Não há campanha no mundo que faça alguém ler. A chave que abre a primeira página não está na mão nem de pais, nem de professores, nem de sociólogos nem de ninguém. A chave está oculta nos pequeninos e desajeitados meninos de poucos anos.
Ninguém coloca um livro nas mãos de um menino. O livro é que o encontra e aÃ, sim, é para sempre. Tentei me lembrar do meu primeiro livro, do meu primeiro contato. Talvez eu tivesse um pouco mais de sete anos e tinha acabado de aprender a ler. A casa da minha avó não tinha livros. No quarto do meu irmão sim. Um lugar sagrado onde era proibida a entrada. Pelo menos enquanto ele estivesse por perto. Abri a porta do meio de um armário – acho que era um guarda roupas, não sei – e peguei o primeiro livro da minha vida. É certo que não consigo ordenar na minha memória o que foi exatamente o primeiro, porque eram três. O livro que li aos poucos, sorrateiramente, enquanto meu irmão não vinha, não sei o nome. Tinha uma capa avermelhada e o desenho de um roseiral. No centro a figura de uma rosa com o olhar triste, as folhas fazendo os braços, a saia,e fiquei ali extasiada com o desenho. Não me lembro da história. Devia ser um livro infantil que meu irmão, pré-adolescente, guardava. Ele guardava tudo ou quase tudo com um estranho zelo de velho. O outro foi uma revista com a história do PrÃncipe Valente. Também não me esqueço da capa. Não era um livro, era uma revista em quadrinhos, mas para os meus sete anos, era um livro. O terceiro foi a Montanha, este eu li com permissão. Sem desenhos que me encantassem, a não ser o da capa, não sei quanto tempo levei para ler, mas sei do encantamento. Eu estava no centro daquela montanha, perdida com aqueles meninos, e não havia jeito e escapar.
Depois disso, me lembro do terceiro ano primário e do livro curricular “As mais belas histórias�. Quando abri o livro, enquanto arrumava as minhas coisas para a aula, não parei de ler enquanto não terminei todas as histórias. E fui atrás do segundo volume que seria do quarto ano. Eram histórias com aquele fundo moral, como pequenas fábulas, onde você aprendia que o certo é bom e bonito, e o errado é mal e feio. Das histórias que ainda me lembro havia uma que me fazia chorar: como foi criado o colibri. Uma que me tirou quase definitivamente os palavrões da boca porque a menininha do desenho tinha sapos saindo da boca enquanto a outra que dizia coisas meigas e bondosas vomitava rosas. Francamente eu preferia vomitar rosas. Tinha também a da menininha que buscava leite e deixava entornar pelo caminho: não adianta chorar sobre leite derramado. E a do João Felpudo, o menino que não gostava de tomar banho ou pentear os cabelos. Morria de pena daquele menino, e tinha raiva das outras crianças que riam dele – as crianças da história. Se me esforçasse mais um pouco acabaria me lembrando de todas. Mas não vem ao caso. A maioria das crianças da minha sala lia as histórias sob a ordem da professora e em ordem. E não gostava disto. Não tinham tempo para histórias.
Não sei onde está a diferença, mas existe. Não acho que esta diferença seja a meu favor. Muito pelo contrário. Alguma coisa no meu cérebro, enquanto eu lia, me afastava da realidade, e eu começava a fazer parte de outra história. Só não digo que sofro alguma espécie de esquizofrenia porque a realidade fica ali do lado esperando fechar o livro. É uma forma especial de doença mental, acho, dos leitores em geral. Ninguém me incentivou. Ninguém esfregou livros na minha cara. Não cresci entre livros, a não ser os minguados volumes de uma prateleira do meu irmão. Ele também veio antes de mim, sob as mesmas condições. A primeira biblioteca da minha vida foi aos 11 anos, biblioteca digna deste nome. Havia as do grupo escolar, um pouco maiores que as do meu irmão, mas qualquer um pode imaginar o que era um biblioteca das escolas públicas, ainda naquele tempo. No entanto eu lia. Avidamente. Ia atrás. Procurava. Enquanto as outras crianças se comunicavam entre si, eu lia. Escapava, acho. Se isso foi bom? Não foi. Não aprendi o que tinha que aprender. Enquanto as outras crianças brincavam, conversavam, brigavam, faziam as pazes, aprendiam o essencial para viver solidamente neste planeta, eu estava num mundo de personagens mais fáceis de lidar, estruturados, concretos, que não me olhavam nos olhos, nem se importavam com meu silêncio.
Mesmo assim ainda penso que poderia ter sido diferente apenas se eu tivesse nascido diferente. Não acho que você escolhe ser um leitor. Você nasce leitor. Não tem escolha. A não ser que nunca dê de cara com um livro o que é definitivamente impossÃvel. Entretanto, todas as pessoas que nascem com condições para viverem de forma mais fácil e adequada, podem viver entre montanhas de livros que não serão leitores. Não há nelas aquele defeito genético que as faça tomar um trem para o interior de um livro e aà ficar quanto tempo for preciso para não ver o resto. E gostar disto, o que é pior.
Sei de pessoas que nasceram leitores e não desenvolveram o “vÃrusâ€�, por falta de ambiente propÃcio. A minha mãe, por exemplo. A minha avó era o anticorpus necessário para que ela não se contaminasse. A minha avó era uma mulher que sabia criar e manipular seus personagens - a minha mãe era um deles – e desenvolveu uma espécie de ojeriza por livros. Sobretudo os que a minha mãe tentava ler. Por um instinto qualquer ela percebia que seria por ali que ela escaparia. Tentou comigo. Chegou a esconder meus livros para que eu não perdesse meu tempo lendo ao invés de sair com outras meninas e conhecer alguém com quem me casasse e completasse o personagem que faria de mim. Escapei por pouco. Por teimosia. A minha mãe não. A minha mãe teve que enfrentar o outro e conseguiu. Não sei se teria sido mais feliz se se contaminasse. Acho que não.
A arrogância dos jovens presumidamente evoluÃdos, aqueles que acham o resto do mundo um exército desordenado de burros, porque não lêem ou lêem o essencial, são só isto: jovens. Que façam coleção de livros e não de medalhas esportivas ou de campeonatos de besteiras, é só uma variedade. Um pouco mais tarde eles saberão disso. Mas aà já é tarde.
Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
CANTANDO NO CÉU
O Alexandre Soares Silva tem uma visão musical do paraÃso. Ou céu, sei lá, qualquer coisa no final das contas. Literalmente.â€� Depois que as fogueiras esfriaram e os leões fizeram suas digestões, os mártires subiram para um céu que se parece com um set de Paris da MGM, e estão cantando até hoje, com George e Ira Gershwin e Cole Porter tentando anotar a letra em pedacinhos de papel e nas mangas das camisas, mas sendo impossibilitados pelo fato de que estão eles mesmos dançando como loucos.â€� Isto para mim seria o inferno. Mesmo porque nem todo mundo tem a musicalidade de Cole Porter. Seria uma tortura ter que ouvir , por exemplo, o pedreiro do vizinho assoviando “O barâ€� durante toda a eternidade. Ou a minha própria voz desconcertada e desafinada tentando achar a letra de “Retrato em preto e brancoâ€� e acabando como sempre em nan, nan,nan,nan,nan. Insuportável visão do ParaÃso.
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O céu afinal é um lugar onde nada é proibido e tudo é possÃvel. Senão não seria céu. As casas nunca terão que ser limpas e estarão sempre infinitamente e eternamente em ordem. Seu cabelo vai estar exatamente como sempre sonhou sem nenhum esforço, sem chapinha, sem tintas, sem nada. Naturalmente. Ninguém engorda ou emagrece, e as dietas todas estarão no inferno que é o lugar delas. As academias de ginástica também.
Aliás, o céu tem que ser privativo, particular, aquela coisa de cada um na sua. O inferno é comunitário, social e democrata. Cruzes!

